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Check-up médico aos 40 e além: o que pedir e porquê

Check-up genérico tipo «perfil completo» raramente serve. Quais os exames com base na idade, sexo, antecedentes e fatores de risco, explicado pela medicina interna.

Equipa do Instituto · · 6 min de leitura

Medicina Interna Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

Gabinete médico do Instituto, com a secretária e as cadeiras de consulta

«Quero fazer um check-up completo.» É um pedido frequente em consulta, e a resposta honesta nem sempre é o que o paciente espera ouvir. Não existe um «check-up completo» universal. O que faz sentido pedir varia com a idade, o sexo, os antecedentes pessoais e familiares, hábitos e fatores de risco. Pedir tudo a todos custa caro, expõe a falsos positivos, e raramente acrescenta benefício real. Este artigo explica como pensamos um check-up médico em medicina interna a partir dos 40 anos.

Este artigo foca as decisões a partir dos 40 anos: o que ganha importância nesta idade e, tão importante, o que não faz sentido pedir. Antes dos 40, sem doenças nem fatores de risco, basta em regra medir a tensão arterial de 3 em 3 a 5 anos e avaliar uma vez o colesterol, a glicemia e o peso; quem fuma, tem excesso de peso ou doença cardiovascular precoce na família deve começar mais cedo e com mais frequência.

Porque é que o «perfil completo» do laboratório não chega

Os «packs» de check-up oferecidos por laboratórios são padronizados, incluem análises gerais, alguns marcadores tumorais, e por vezes exames de imagem genéricos. Têm duas fragilidades. Primeiro: faltam-lhes os exames que mais importam consoante o perfil do paciente (mamografia, colonoscopia, TAC tórax em fumadores, doppler em quem tem trombose familiar). Segundo: incluem testes de baixo valor preditivo na população assintomática (marcadores tumorais como CEA ou CA 19-9 dão muitos falsos positivos, gerando ansiedade e exames invasivos sem benefício).

O check-up útil parte da pessoa, não do laboratório. A consulta médica vem antes da requisição de exames, não depois.

Eixo 1: risco cardiovascular

É a principal causa de morte evitável em ambos os sexos a partir dos 40. Avaliação básica:

  • Tensão arterial em consulta + automedição em casa se houver suspeita de hipertensão de bata branca
  • Lípidos, colesterol total, LDL, HDL, triglicéridos
  • Glicemia em jejum + HbA1c, despiste de pré-diabetes/diabetes
  • Cálculo de risco cardiovascular SCORE2 (faz-se em consulta), orienta intensidade da intervenção
  • ECG basal, em alterações no exame físico ou risco aumentado

Eixo 2: rastreios oncológicos

  • Mama (mulheres dos 50 aos 69 anos, de 2 em 2 anos): mamografia, como no programa de rastreio; a recomendação europeia alarga dos 45 aos 74 anos. Com antecedentes familiares fortes ou mutações conhecidas, começa-se mais cedo, por vezes com ressonância.
  • Colo do útero (mulheres dos 25 aos 64 anos, no programa nacional): teste de HPV, em regra de 5 em 5 anos quando é negativo.
  • Cólon (homens e mulheres dos 50 aos 74 anos): pesquisa de sangue oculto nas fezes (teste imunoquímico) de 2 em 2 anos, como no programa nacional e na recomendação europeia; se der positivo, faz-se colonoscopia. A colonoscopia de 10 em 10 anos é uma alternativa. Com um familiar de 1.º grau com cancro do cólon, começa-se mais cedo (em regra aos 40, ou 10 anos antes da idade em que o familiar adoeceu).
  • Pulmão (fumadores ou ex-fumadores recentes dos 50 aos 80 anos, com 20 ou mais unidades maço-ano): pode discutir-se uma TAC do tórax de baixa dose anual. Ainda não há programa nacional; decide-se em consulta.
  • Próstata (homens 50-70): conversa partilhada com o paciente sobre risco/benefício do PSA, não é rastreio universal recomendado.

Eixo 3: saúde geral e funções específicas

  • Função tiroideia (TSH), só se houver sintomas (cansaço, alterações do peso, da pele ou do ciclo) ou fatores de risco; não é exame de rotina
  • Função renal (creatinina, eGFR) e hepática (ALT, AST, GGT), basal e mais frequente se fatores de risco
  • Hemograma + ferro/ferritina, anemia silenciosa especialmente em mulheres pré-menopausa
  • Vitamina D, só com indicação clínica (queda, dor óssea, malabsorção)
  • Saúde óssea, densitometria a partir dos 65 (mulheres) ou mais cedo se fatores de risco
  • Audição e visão, não esquecer; perda auditiva precoce está associada a declínio cognitivo

O que não faz parte de um bom check-up

  • Marcadores tumorais (CEA, CA 19-9, CA 125…) em pacientes assintomáticos, sensibilidade e especificidade insuficientes para rastreio
  • «Body scan» tipo TAC corpo inteiro, radiação significativa, falsos positivos frequentes, sem benefício de mortalidade
  • Exames repetidos anualmente sem indicação, bom check-up tem cadência ajustada, não é «tudo todos os anos»

Sintomas que não esperam pelo check-up

Um check-up não substitui a consulta quando há sintomas. Marque consulta sem esperar se tiver:

  • falta de ar ou cansaço anormal ao esforço;
  • palpitações frequentes ou irregulares;
  • perda de peso sem querer, de mais de 5% em menos de 6 meses;
  • cansaço persistente sem causa aparente;
  • alterações do funcionamento do intestino que duram mais de 3 semanas, ou sangue nas fezes;
  • febre prolongada sem causa conhecida.

Dor no peito, falta de ar súbita, uma dor de cabeça muito forte e repentina ou sinais de AVC (boca ao lado, falta de força num braço, dificuldade em falar) não são para consulta: ligue 112.

Um check-up útil começa por uma conversa

A consulta de medicina interna para check-up dura 60 minutos: história clínica detalhada, antecedentes familiares relevantes, hábitos (alimentação, exercício, sono, álcool, tabaco), exame físico completo. Só depois se pedem os exames, alguns hoje, outros mais tarde, alguns nunca. O resultado vem com plano: o que está bem, o que vigiar, o que mudar.

Quando procurar acompanhamento médico

Se nunca fez um check-up estruturado, ou se o último foi um pacote padronizado sem consulta médica antes, vale a pena uma consulta de medicina interna com revisão completa. Na clínica em Paços de Ferreira o diretor clínico Dr. Nuno Leal faz consulta de check-up adaptada a cada perfil, o que pedir e o que evitar baseia-se em evidência atual, não em pacotes comerciais.

O que muda nos 50, 60, 70 anos

O check-up não é um exame fixo, adapta-se à fase da vida.

  • 40-49: foco em fatores de risco cardiovascular emergentes, primeira mamografia em mulheres com risco aumentado, controlo apertado de tensão e lípidos. Saúde mental e qualidade do sono começam a ganhar peso.
  • 50-59: rastreios oncológicos formais (cólon e mama; o do colo do útero vem dos 25 anos), discussão de PSA em homens, vacinação a atualizar (tétano, gripe anual, herpes zóster a partir dos 50).
  • 60-69: introduzir avaliação cognitiva basal, função renal (a tiroide só com indicação), densitometria nas mulheres, audição/visão. Atenção a polimedicação e revisão crítica do que continua indicado.
  • 70+: a estratégia muda, em vez de «rastrear tudo», privilegia-se manutenção da função, prevenção de queda, otimização de medicação, suporte social. Alguns rastreios deixam de fazer sentido (colonoscopia em >75 com colonoscopia recente normal, por exemplo).

Erros frequentes em pacientes automedicalizados

  • Pedir análises a si próprio com base em sintomas pesquisados online, há um padrão claro: tudo o que mostra valor «fora do intervalo», mesmo que clinicamente irrelevante, gera ansiedade e mais exames.
  • Repetir exames todos os anos sem indicação, colonoscopia anual quando a anterior foi normal? Mamografia de 6 em 6 meses? Sem benefício, com risco.
  • Suplementação «preventiva» sem défice demonstrado, vitamina D em doses elevadas sem analítica, multivitamínicos em alimentação variada, ómega-3 em quem come peixe regularmente. A maioria não faz mal mas custa dinheiro e cria falsa sensação de proteção.
  • Marcadores tumorais em pessoas saudáveis, gera mais dano (ansiedade, exames invasivos por falsos positivos) do que benefício de mortalidade.

Fontes

  1. Krogsbøll LT, et al. General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease. Cochrane Database Syst Rev. 2019;1(1):CD009009.
  2. Conselho da União Europeia. Recomendação do Conselho, de 9 de dezembro de 2022, sobre o reforço da prevenção através da deteção precoce: uma nova abordagem da UE para o rastreio do cancro que substitui a Recomendação 2003/878/CE do Conselho (2022/C 473/01). Jornal Oficial da União Europeia. 2022;C 473:1-10.
  3. US Preventive Services Task Force, et al. Screening for lung cancer: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA. 2021;325(10):962-70.
  4. LeFevre ML, et al. Screening for thyroid dysfunction: U.S. Preventive Services Task Force recommendation statement. Ann Intern Med. 2015;162(9):641-50.
  5. Visseren FLJ, et al. 2021 ESC Guidelines on cardiovascular disease prevention in clinical practice. Eur Heart J. 2021;42(34):3227-337.

Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.

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