Hipertensão arterial: avaliação e tratamento | Instituto MDSM
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Hipertensão arterial: o “assassino silencioso” e o que fazer

Estetoscópio e traçado de eletrocardiograma sobre secretária — avaliação cardiovascular e de tensão arterial no Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins

A hipertensão arterial afecta cerca de 4 em cada 10 adultos em Portugal — e metade não sabe que tem. Não dói, raramente dá sintomas, e progride silenciosamente até causar AVC, enfarte, doença renal ou demência. Por isto se chama “assassino silencioso”. A boa notícia: detectar cedo e tratar bem reduz drasticamente o risco. Este artigo explica como avaliar e tratar com critério.

O que é tensão arterial alta

Tensão arterial é a força com que o sangue empurra as paredes das artérias. Mede-se em dois números: sistólica (quando o coração bate) e diastólica (entre batimentos). Categorias actuais (Sociedade Europeia de Cardiologia):

  • Óptima — <120/80 mmHg
  • Normal — 120-129/80-84 mmHg
  • Normal-alta — 130-139/85-89 mmHg
  • Hipertensão grau 1 — 140-159/90-99 mmHg
  • Hipertensão grau 2 — 160-179/100-109 mmHg
  • Hipertensão grau 3 — ≥180/110 mmHg

Diagnóstico nunca se faz com uma única medição. Confirma-se com medições repetidas em consulta, e idealmente medição ambulatória 24h (MAPA) ou auto-medição em casa.

Como medir bem em casa

  • Aparelho automático de braço com selo CE / aprovação clínica (não de pulso, menos fiável)
  • Sentado em cadeira com costas apoiadas, pernas não cruzadas, braço apoiado à altura do coração
  • 5 minutos de repouso antes da medição. Não falar durante
  • 2 medições em cada momento, com 1-2 minutos de intervalo. Anotar a média
  • Manhã (antes de tomar medicação) e noite, durante 7 dias seguidos para um perfil válido
  • Não medir imediatamente após exercício, café, álcool, tabaco ou refeição copiosa

“Hipertensão de bata branca” vs hipertensão real

Cerca de 15-20% das pessoas com tensão alta em consulta tem valores normais em casa — é a chamada “hipertensão de bata branca”. Não é “fingir”: é resposta fisiológica ao stress da consulta. Diagnóstico baseado só em consulta sem confirmação domiciliária leva a tratamento desnecessário em muitos casos.

O contrário também acontece: hipertensão mascarada — tensão normal em consulta mas alta em casa ou no trabalho. Subdiagnosticada, com risco cardiovascular igual ao da hipertensão “clássica”. Daí a importância da medição domiciliária em qualquer suspeita.

Tratamento — não é só comprimidos

O plano combina medidas não-farmacológicas (sempre) e medicação (quando indicada).

Medidas não-farmacológicas com evidência:

  • Reduzir sódio <5g/dia (1 colher de chá de sal) — reduz 5-10 mmHg em pessoas sensíveis ao sal
  • Dieta DASH ou mediterrânica — rica em vegetais, frutas, lacticínios magros, peixe, frutos secos
  • Exercício aeróbico regular 150 min/semana — reduz 4-9 mmHg
  • Perda de peso em obesidade — 5-10 mmHg por cada 10 kg perdidos
  • Reduzir álcool <14 unidades/semana (homem) ou <8 (mulher)
  • Não fumar — não reduz tensão directamente, mas reduz dano vascular concomitante
  • Gerir stress crónico, dormir o suficiente

Medicação é indicada em hipertensão grau 1 com risco cardiovascular alto, e em todos os graus 2 e 3. Várias classes (IECAs, ARAs, bloqueadores de canais de cálcio, diuréticos, beta-bloqueadores) com indicações específicas. Em geral, controlo apertado precisa de 2-3 fármacos em combinação. Tomada matinal, todos os dias, para a vida — em geral.

Causas secundárias — quando suspeitar

Em 90-95% dos casos, hipertensão é “essencial” (sem causa identificável única). Mas em 5-10% há causa subjacente que pode ser corrigida — deve ser despistada em casos seleccionados:

  • Hipertensão grave ou refractária a 3+ fármacos
  • Início abrupto, especialmente em jovens (<30 anos) ou idosos sem antecedentes
  • Suspeita clínica (apneia obstrutiva do sono, tiróide, suprarrenal, doença renal)

Quando procurar acompanhamento médico

Se nunca mediu a tensão, ou se as medições recentes estão consistentemente acima de 130/85, vale a pena consulta de medicina interna com avaliação dos valores ambulatórios, despiste de lesão de órgão-alvo (coração, rim, retina), avaliação de risco cardiovascular global e plano integrado. Hipertensão não dói — mas reduzi-la bem reduz risco em 30-40%. É das intervenções com melhor relação custo-benefício na medicina actual.

Mitos comuns sobre tensão arterial

  • “Eu sinto quando a tensão sobe.” Falso. A maioria das pessoas com tensão alta não sente. Cefaleia, tonturas e enjoos são pouco específicos e raramente correlacionam com valores elevados. Confiar no “sentir” leva a subdiagnóstico.
  • “Tomar comprimido cria dependência.” Não cria dependência farmacológica. O que acontece é que a tensão sobe de novo se a medicação for parada — porque o problema de base persiste, não porque o corpo “habituou”.
  • “Posso parar quando estiver controlada.” Em geral não. A hipertensão essencial é doença crónica. Em casos seleccionados (perda de peso significativa, melhoria substancial do estilo de vida) pode ser possível reduzir doses ou parar — sempre sob acompanhamento e com monitorização.
  • “Sal marinho ou rosa é melhor.” Quimicamente é cloreto de sódio igual. O que importa é a quantidade total, não o “tipo”.
  • “Se a média for boa, está controlada.” Picos diários ou diferenças marcadas dia/noite têm valor próprio. MAPA (medição 24h) revela informação que medições isoladas não captam.

Sinais que justificam ida ao SU

Hipertensão crónica gere-se em consulta. Mas há cenários que requerem avaliação imediata:

  • Tensão ≥180/120 com sintomas (cefaleia intensa, alterações visuais, dor torácica, falta de ar, défice neurológico, alteração da consciência) — emergência hipertensiva
  • Tensão ≥180/120 sem sintomas mas confirmada com várias medições — urgência relativa, avaliação no próprio dia
  • Sintomas sugestivos de complicação aguda — AVC, enfarte, edema agudo do pulmão (ver post sobre sinais de AVC)
Dr. Nuno Leal, Medicina Interna · Director Clínico, Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira
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