Hipertensão arterial: o «assassino silencioso» e o que fazer
Hipertensão raramente dá sintomas até causar dano. Como medir bem, quando começar tratamento, e o que protege para além dos comprimidos.
Equipa do Instituto · · 5 min de leitura
Medicina Interna Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

A hipertensão arterial afeta cerca de 4 em cada 10 adultos em Portugal, e cerca de 1 em cada 4 não sabe que a tem. Não dói, raramente dá sintomas, e progride silenciosamente até causar AVC, enfarte, doença renal ou demência. Por isto se chama «assassino silencioso». A boa notícia: detetar cedo e tratar bem reduz muito o risco de AVC e de enfarte. Este artigo explica como avaliar e tratar com critério.
O que é tensão arterial alta
Tensão arterial é a força com que o sangue empurra as paredes das artérias. Mede-se em dois números: sistólica (quando o coração bate) e diastólica (entre batimentos). As categorias da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), revistas em 2024, para a tensão medida em consulta:
- Não elevada, menos de 120/70 mmHg
- Elevada, 120 a 139 de máxima ou 70 a 89 de mínima
- Hipertensão, 140/90 mmHg ou mais, confirmada com medições fora da consulta
Diagnóstico nunca se faz com uma única medição. Confirma-se com medições repetidas em consulta e, idealmente, com medição ambulatória de 24 horas (MAPA) ou medições em casa. Em casa, conta como hipertensão uma média de 135/85 ou mais; na MAPA, uma média de 130/80 ou mais nas 24 horas.
Como medir bem em casa
- Aparelho automático de braço com selo CE / aprovação clínica (não de pulso, menos fiável)
- Sentado em cadeira com costas apoiadas, pernas não cruzadas, braço apoiado à altura do coração
- 5 minutos de repouso antes da medição. Não falar durante
- 2 medições em cada momento, com 1-2 minutos de intervalo. Anotar a média
- Manhã (antes de tomar medicação) e noite, durante 7 dias seguidos para um perfil válido
- Não medir imediatamente após exercício, café, álcool, tabaco ou refeição copiosa
«Hipertensão de bata branca» vs hipertensão real
Cerca de 15-20% das pessoas com tensão alta em consulta tem valores normais em casa, é a chamada «hipertensão de bata branca». Não é «fingir»: é resposta fisiológica ao stress da consulta. Diagnóstico baseado só em consulta sem confirmação domiciliária leva a tratamento desnecessário em muitos casos.
O contrário também acontece: hipertensão mascarada, tensão normal em consulta mas alta em casa ou no trabalho. Subdiagnosticada, com risco cardiovascular igual ao da hipertensão «clássica». Daí a importância da medição domiciliária em qualquer suspeita.
Tratamento, não é só comprimidos
O plano combina medidas não-farmacológicas (sempre) e medicação (quando indicada).
Medidas não-farmacológicas com evidência:
- Reduzir o sal para menos de 5 g por dia, cerca de uma colher de chá rasa, contando com o que já vem no pão, nos enchidos e nos pratos feitos. Em Portugal come-se, em média, perto do dobro. Baixa a tensão, sobretudo em quem é sensível ao sal
- Dieta DASH ou mediterrânica, rica em vegetais, frutas, lacticínios magros, peixe, frutos secos
- Exercício regular, pelo menos 150 minutos por semana de exercício aeróbico moderado (caminhada rápida, bicicleta, natação) e exercícios de força 2 a 3 vezes por semana, reduz 4-9 mmHg
- Perda de peso em obesidade, 5-10 mmHg por cada 10 kg perdidos
- Reduzir o álcool: o ideal é não beber; se beber, menos de 100 g de álcool por semana (cerca de 10 bebidas-padrão)
- Não fumar, não reduz tensão diretamente, mas reduz dano vascular concomitante
- Gerir stress crónico, dormir o suficiente
Medicação. Com hipertensão confirmada (140/90 ou mais), a ESC recomenda medicação, além das mudanças no estilo de vida. Com tensão elevada (130 a 139 de máxima ou 80 a 89 de mínima), pondera-se medicação ao fim de 3 meses de mudanças no estilo de vida se o risco cardiovascular for alto ou se houver doença cardiovascular, doença renal ou diabetes. Há várias classes de medicamentos (IECA, ARA, bloqueadores dos canais de cálcio, diuréticos, beta-bloqueadores) e hoje começa-se muitas vezes com dois medicamentos em dose baixa, num só comprimido. Para a maioria das pessoas o objetivo é uma tensão máxima entre 120 e 129, se for bem tolerada. Tome à hora do dia que lhe for mais fácil de cumprir todos os dias: de manhã ou à noite, o efeito é o mesmo. Em regra, o tratamento é para manter.
Causas secundárias, quando suspeitar
Em 90-95% dos casos, hipertensão é «essencial» (sem causa identificável única). Mas em 5-10% há causa subjacente que pode ser corrigida, deve ser despistada em casos selecionados:
- Hipertensão grave ou refratária a 3+ fármacos
- Início abrupto, especialmente em jovens (<30 anos) ou idosos sem antecedentes
- Suspeita clínica (apneia obstrutiva do sono, tiróide, suprarrenal, doença renal)
Quando procurar acompanhamento médico
Se nunca mediu a tensão, ou se as medições em casa dão muitas vezes 135/85 ou mais, vale a pena consulta de medicina interna com avaliação dos valores ambulatórios, despiste de lesão de órgão-alvo (coração, rim, retina), avaliação de risco cardiovascular global e plano integrado. Hipertensão não dói, mas baixar 10 mmHg na tensão máxima reduz em cerca de 20% os enfartes, os AVC e outros acontecimentos cardiovasculares graves.
Mitos comuns sobre tensão arterial
- «Eu sinto quando a tensão sobe.» Falso. A maioria das pessoas com tensão alta não sente. Cefaleia, tonturas e enjoos são pouco específicos e raramente correlacionam com valores elevados. Confiar no «sentir» leva a subdiagnóstico.
- «Tomar comprimido cria dependência.» Não cria dependência farmacológica. O que acontece é que a tensão sobe de novo se a medicação for parada, porque o problema de base persiste, não porque o corpo «habituou».
- «Posso parar quando estiver controlada.» Em geral não. A hipertensão essencial é doença crónica. Em casos selecionados (perda de peso significativa, melhoria substancial do estilo de vida) pode ser possível reduzir doses ou parar, sempre sob acompanhamento e com monitorização.
- «Sal marinho ou rosa é melhor.» Quimicamente é cloreto de sódio igual. O que importa é a quantidade total, não o «tipo».
- «Se a média for boa, está controlada.» Picos diários ou diferenças marcadas dia/noite têm valor próprio. MAPA (medição 24h) revela informação que medições isoladas não captam.
Quando ligar 112
A hipertensão gere-se em consulta. Mas há situações que não podem esperar:
- Tensão de 180/110 ou mais com sintomas (dor de cabeça muito forte, alterações da visão, dor no peito, falta de ar, fraqueza ou dormência de um lado do corpo, dificuldade em falar, confusão): é uma emergência, ligue 112.
- Tensão de 180/110 ou mais sem sintomas, confirmada com várias medições em repouso: precisa de avaliação médica no próprio dia. Em dúvida, ligue SNS 24 (808 24 24 24).
- Sinais de AVC ou de enfarte (boca ao lado, falta de força num braço, dificuldade em falar, dor no peito que não passa): ligue 112 de imediato, mesmo que a tensão pareça normal.
Fontes
- McEvoy JW, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of elevated blood pressure and hypertension. Eur Heart J. 2024;45(38):3912-4018.
- Polonia J, et al. Prevalence, awareness, treatment and control of hypertension and salt intake in Portugal: changes over a decade. The PHYSA study. J Hypertens. 2014;32(6):1211-21.
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Sodium reduction (fact sheet). Genebra: OMS; atualizada.
- Mackenzie IS, et al. Cardiovascular outcomes in adults with hypertension with evening versus morning dosing of usual antihypertensives in the UK (TIME study): a prospective, randomised, open-label, blinded-endpoint clinical trial. Lancet. 2022;400(10361):1417-25.
- Ettehad D, et al. Blood pressure lowering for prevention of cardiovascular disease and death: a systematic review and meta-analysis. Lancet. 2016;387(10022):957-67.
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Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.


