Quando levar a criança ao serviço de urgência (e quando não vale a pena)
Febre, vómitos, choro inconsolável: quando justifica SU pediátrico, quando é consulta de pediatria, e quando basta SNS24. Critérios práticos para pais.
Equipa do Instituto · · 5 min de leitura
Pediatria Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

O serviço de urgência pediátrico está cheio de pais com crianças que não precisam de estar lá. Não é falta de bom senso, é dúvida genuína, agravada por horas de espera, sites contraditórios, e a sensação legítima de que com crianças «mais vale prevenir». Este artigo dá-lhe critérios concretos: o que é SU sem demora, o que pode esperar pela consulta, e o que se resolve com uma chamada para o SNS24.
Sinais que justificam SU pediátrico imediato
- Bebé com menos de 3 meses e febre ≥38ºC, sempre, sem hesitar
- Dificuldade respiratória, narinas a abrir, costelas a marcar a cada respiração, lábios cianosados, batimento das asas do nariz
- Convulsões (mesmo que pareça parar), primeiro episódio sempre vai a SU
- Letargia, criança difícil de acordar, «não responde como costuma»
- Choro inconsolável persistente em bebé pequeno (mais de 2 horas), sem causa aparente
- Sangue nas fezes ou vómitos com sangue em quantidade não-residual
- Erupção cutânea petequial (pontinhos vermelhos que não desaparecem ao pressionar com vidro) com febre, descartar meningite
- Trauma significativo (queda da altura própria com perda de consciência, pancada na cabeça com vómitos)
- Suspeita de ingestão acidental (medicamentos, produtos de limpeza, baterias-botão): ligue logo para o Centro de Informação Antivenenos (CIAV), 800 250 250, gratuito e 24 horas por dia, e siga o que lhe disserem; não provoque o vómito. Se engoliu uma bateria-botão ou ímanes, vá logo à urgência, mesmo sem sintomas. Se a criança estiver sonolenta, com dificuldade em respirar ou com convulsões, ligue 112
- Desidratação visível, boca seca, sem urinar há 6+ horas, fontanela em depressão em bebés
Se a criança tiver uma convulsão, dificuldade em respirar, manchas na pele com febre que não desaparecem ao pressionar com um copo, ou não acordar bem, ligue 112. Em dúvida, ligue SNS 24 (808 24 24 24).
Sintomas que parecem urgentes mas habitualmente não são
- Febre alta numa criança que tolera bem, está ativa, bebe líquidos, brinca em pausas. A febre é defesa, não inimiga; a temperatura por si só não decide ida ao SU
- Erupção cutânea generalizada sem febre alta, em criança bem disposta, frequentemente vírica, espera consulta
- Tosse e mucosidade nasal abundantes, mesmo prolongadas, em criança que come, dorme razoavelmente e não tem dificuldade respiratória
- Diarreia «barulhenta» 2-3 vezes em 24h, sem desidratação
- 1 ou 2 vómitos que pararam, criança a aceitar líquidos depois
- Dor de garganta sem dificuldade em engolir ou tosse rouca leve
Febre, quando preocupar e quando não
A maior fonte de idas ao SU é a febre, e a maior parte é desnecessária. Os princípios em criança saudável com mais de 3 meses:
- Acima dos 6 meses, o número da febre importa menos do que o estado geral da criança entre picos: está ativa? bebe? brinca? Entre os 3 e os 6 meses, uma febre de 39 °C ou mais deve ser vista por um médico no próprio dia
- Acima dos 6 meses, se a criança está bem disposta entre picos, mesmo com febre alta, pode esperar pela consulta
- Se está prostrada, recusa líquidos, não responde, mesmo com febre baixa, vai a SU
- Febre que dura 5 dias ou mais deve ser vista por um médico no próprio dia ou no seguinte, mesmo que a criança pareça bem: há causas, como a doença de Kawasaki, que se tratam melhor cedo
- O paracetamol e ibuprofeno servem para conforto da criança, não para «baixar a febre» como objetivo em si
Convulsão febril, assustadora mas geralmente benigna
Em crianças entre os 6 meses e 5 anos, uma convulsão associada a subida rápida de febre é frequente, autolimitada, e não significa epilepsia. O primeiro episódio vai sempre a SU para confirmar o diagnóstico e excluir causas mais graves. Episódios subsequentes em criança já avaliada podem ser geridos em consulta de pediatria, com plano clínico estabelecido. Se a convulsão durar mais de 5 minutos, ligue 112.
Vómitos e diarreia, quando ir, quando ficar
Gastroenterite aguda é uma das causas mais frequentes. A maioria gere-se em casa com hidratação cuidada (soro de reidratação oral, em pequenas quantidades repetidas). Vai a SU quando: sinais de desidratação (boca seca, sem urina, choro sem lágrimas, prostração), vómitos persistentes que impedem qualquer hidratação (mais de 8-12 horas), sangue nas fezes em quantidade não-residual, ou criança com menos de 6 meses com diarreia/vómitos significativos. Diarreia em criança que continua a beber, urinar e a ter períodos ativos espera consulta.
Consulta de pediatria, SU ou SNS24?
- SU pediátrico, sinais da primeira lista deste artigo, especialmente em bebés <3 meses ou crianças com doenças crónicas
- Consulta de pediatria, sintomas persistentes não-graves (febre de 3 ou 4 dias numa criança bem disposta, tosse prolongada, alterações comportamentais), avaliação de crescimento, dúvidas sobre alimentação/sono/desenvolvimento
- SNS24 (808 24 24 24), útil para triagem antes de decidir SU em situações intermédias; a chamada é gratuita e o tempo de espera tipicamente curto
Quando procurar acompanhamento médico
Para sintomas persistentes não-graves, alterações de desenvolvimento, ou simplesmente a vontade de ter um pediatra de referência fora dos saltos no SU, vale a pena estabelecer acompanhamento numa consulta de pediatria regular. Na clínica em Paços de Ferreira o Dr. Sérgio Alves acompanha em consulta agendada, com tempo para explicar e responder a dúvidas, exatamente o que o ritmo do SU não permite.
Como avaliar o estado geral antes de decidir
Numa criança com sintomas, o que mais informa não é o sintoma isolado mas o estado geral. Antes de ligar para o SNS24 ou ir ao SU, observe com calma:
- Cor, pele rosada e mucosas húmidas vs palidez/cianose
- Reatividade, sorri, brinca em pausas, reage à voz e ao olhar vs prostrada e indiferente
- Hidratação, urina nas últimas horas, lábios húmidos, faz lágrimas ao chorar
- Respiração, calma e regular vs frequência aumentada, esforço visível
- Apetite, toma líquidos vs recusa total persistente
Uma criança com febre de 39ºC mas que continua a brincar, beber e responder está a transmitir uma informação importante. Outra com 38ºC mas prostrada, cinzenta e sem reagir é muito mais preocupante, independentemente do número no termómetro.
O que levar e como gerir uma ida ao SU
- Boletim de saúde infantil com vacinação atualizada
- Lista da medicação habitual e alergias conhecidas
- Notas dos sintomas, quando começou, evolução, temperaturas medidas, antipiréticos dados (qual e quando)
- Mudas de roupa, fralda extra, água, pequeno lanche, a espera pode ser longa
- Telemóvel carregado e algo para distrair a criança
O SU pediátrico funciona por triagem (Manchester adaptado): casos verdadeiramente urgentes são vistos primeiro, mesmo que cheguem depois. A espera com criança bem disposta é normal e não significa que esteja a ser ignorada, significa que ela está num grupo de prioridade adequado ao seu estado.
Fontes
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Fever in under 5s: assessment and initial management. NICE guideline NG143. Londres: NICE; 2019 (atualizada).
- Steering Committee on Quality Improvement and Management, Subcommittee on Febrile Seizures, American Academy of Pediatrics. Febrile seizures: clinical practice guideline for the long-term management of the child with simple febrile seizures. Pediatrics. 2008;121(6):1281-6.
- Guarino A, et al. European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition/European Society for Pediatric Infectious Diseases evidence-based guidelines for the management of acute gastroenteritis in children in Europe: update 2014. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2014;59(1):132-52.
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Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.


