Dor no joelho: meniscos, ligamentos, artrose: quando ortopedia
Dor no joelho persistente: lesão menisco, rotura ligamentar, artrose ou sobrecarga? Como pensar e quando faz sentido consulta de ortopedia.
Equipa do Instituto · · 4 min de leitura
Ortopedia Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

Dor no joelho é uma das queixas mais frequentes em consulta de ortopedia, e uma das mais variadas em causas. Lesão aguda durante exercício? Desgaste por idade? Sobrecarga repetida? «Joelho do corredor»? Cada um destes implica abordagem diferente. Este artigo explica os quadros mais frequentes, os critérios para distinguir, e quando vale a pena imagem ou consulta especializada.
Anatomia em 60 segundos
O joelho é uma articulação complexa entre fémur, tíbia e rótula. Estruturas que doem com mais frequência:
- Meniscos (medial e lateral), discos de cartilagem que amortecem e estabilizam
- Ligamentos cruzados (anterior e posterior), estabilidade ântero-posterior
- Ligamentos colaterais (medial e lateral), estabilidade lateral
- Cartilagem articular, superfície deslizante
- Tendões (quadricípete, rotuliano), transmissão de força muscular
- Bolsas serosas, bursite quando inflamadas
Lesão aguda (trauma claro)
Dor súbita após movimento brusco, queda, ou contacto desportivo. Sinais que devem mover para avaliação no próprio dia ou dia seguinte:
- «Sentir um estalo» ou um clique no momento da lesão, frequente em rotura do ligamento cruzado anterior
- Inchaço acentuado nas primeiras horas (hemartrose)
- Sensação de «joelho a falhar» ao apoiar peso, instabilidade ligamentar
- Bloqueio, joelho não dobra ou não estica completamente, sugestivo de lesão meniscal com fragmento solto
- Dor à palpação focal em ligamento ou interlinha articular
Avaliação em consulta de ortopedia ou serviço de urgência ortopédica, com radiografia inicial. Ressonância magnética em casos com suspeita de lesão ligamentar ou meniscal.
Dor de sobrecarga (sem trauma agudo)
Atletas amadores e profissionais que aumentam carga, mudam técnica ou superfície de treino, ou pessoas sedentárias que retomam atividade abruptamente. Síndromes típicas:
- Síndrome femoro-rotuliana («joelho do corredor»), dor anterior, perirrotuliana, agravada por subir/descer escadas e ficar muito tempo sentado
- Tendinopatia rotuliana, dor abaixo da rótula, típica em desportos com saltos
- Síndrome da banda iliotibial, dor lateral do joelho em corredores
- Bursite, dor à pressão sobre uma área específica, com inchaço focal
Estas situações tipicamente respondem a fisioterapia (correção de padrões biomecânicos, fortalecimento), modificação de treino e analgesia pontual. Imagem por rotina não é necessária.
Artrose, desgaste articular
A artrose do joelho (gonartrose) afeta cerca de 10% dos adultos >60 anos, mais em mulheres, em quem tem antecedentes de lesão prévia, ou em quem tem peso excessivo. Apresentação típica:
- Dor de início insidioso, agravada com atividade, melhora com repouso
- Rigidez matinal de curta duração (<30 min)
- Crepitações ao mexer o joelho
- Limitação progressiva da flexão, dificuldade em levantar de cadeiras baixas
- Episódios de exacerbação com inchaço e dor maior
Diagnóstico clínico, pela idade, pelas queixas e pelo exame; na maioria dos casos não é preciso imagem, e a ressonância raramente acrescenta. Tratamento conservador é a base: perda de peso (cada kg poupa 4 kg na pressão articular), exercício terapêutico (paradoxalmente, joelhos com artrose precisam de movimento, não de repouso), analgesia ajustada, fisioterapia e em casos selecionados infiltrações. Cirurgia (prótese) reservada para casos com dor incapacitante e perda funcional marcada apesar de medidas conservadoras maximizadas.
Quando vai imagem (e quando não)
- Radiografia, quando o exame deixa dúvidas ou se suspeita de outra causa (na artrose típica não é precisa por rotina); mostra alinhamento, espaço articular, alterações degenerativas, fraturas
- RM, justificada em suspeita de lesão ligamentar, meniscal sintomática, lesões cartilaginosas focais, ou em pré-cirurgia
- Ecografia, útil em tendinopatias e bursites superficiais, baixa para estruturas intra-articulares
- TAC, preferida em fraturas complexas e planeamento cirúrgico de prótese
Pedir RM «para ver melhor» sem indicação clínica clara raramente muda a conduta, e revela frequentemente alterações degenerativas que não são causa da dor atual. Imagem dirigida pelo exame clínico é a regra.
Quando procurar acompanhamento médico
Dor no joelho com mais de 4-6 semanas, lesão aguda com inchaço marcado ou sensação de instabilidade, ou dor que limita atividade quotidiana, todos justificam consulta de ortopedia. Na clínica em Paços de Ferreira, o Dr. Marcos Silva acompanha em consulta agendada com avaliação clínica orientada e plano dirigido, em articulação com fisioterapia quando indicado, e com decisão criteriosa sobre quando faz sentido pedir imagem ou cirurgia.
O que fazer em casa numa lesão aguda
Nas primeiras 48-72 horas após lesão sem sinais de alarme óbvios (ver acima), a abordagem em casa tem evidência consolidada, protocolo POLICE (evolução do antigo RICE):
- Protection, proteger de novo trauma; evitar movimentos que despoletem dor aguda
- Optimal Loading, carregar o joelho de forma ajustada à dor, em vez de imobilização total. Movimento dentro do tolerável acelera recuperação
- Ice, gelo 15-20 min, várias vezes por dia, nas primeiras 48h, com pano interposto (não diretamente na pele)
- Compression, ligadura elástica adequada, sem comprimir excessivamente
- Elevation, elevar o joelho acima do nível do coração quando possível
Anti-inflamatórios não esteroides em ciclos curtos (3-7 dias) ajudam, sempre verificar contraindicações (úlcera, doença renal, anticoagulação). Se a dor não melhorar em 5-7 dias, ou se piorar, vale a pena avaliação clínica.
Como prevenir lesões e desgaste articular
- Manter peso saudável, cada quilo extra multiplica força sobre o joelho ao caminhar e correr (cerca de 4× ao subir escadas)
- Fortalecimento dos quadríceps, glúteos e músculos do tronco, quanto mais forte a musculatura periarticular, menos sobrecarga direta nas estruturas passivas (ligamentos, meniscos, cartilagem)
- Aumentar carga de treino gradualmente, regra dos 10% por semana é boa orientação para corredores
- Escolher calçado adequado ao tipo de atividade e pisada
- Aquecer antes de exercício intenso e fazer alongamento controlado depois
- Não ignorar dor persistente, «treinar pela dor» é receita para lesão crónica
Fontes
- Fransen M, et al. Exercise for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev. 2015;1(1):CD004376.
- Messier SP, et al. Weight loss reduces knee-joint loads in overweight and obese older adults with knee osteoarthritis. Arthritis Rheum. 2005;52(7):2026-32.
- Englund M, et al. Incidental meniscal findings on knee MRI in middle-aged and elderly persons. N Engl J Med. 2008;359(11):1108-15.
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Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.


