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Gengivas a sangrar ao escovar: quando é normal e quando preocupar

Sangrar ao escovar nunca é totalmente normal. Pode ser gengivite (reversível) ou periodontite (perda óssea). Como distinguir, prevenir e tratar.

Equipa do Instituto · · 5 min de leitura

Medicina Dentária Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

Escova de dentes, fio dentário e escovilhões interdentários numa prateleira de casa de banho

«As minhas gengivas sangram um bocadinho quando escovo, mas é só nos primeiros dias depois das férias / quando uso fio dentário / quando uso uma escova nova.» É das frases mais ouvidas em consulta, e quase sempre acompanhada de uma normalização do problema. A verdade clínica é mais simples: gengiva saudável não sangra ao escovar. Quando sangra, está a pedir atenção. Este artigo distingue gengivite (reversível) de periodontite (perda óssea irreversível) e explica o que fazer em cada caso.

Porque é que a gengiva sangra

A causa mais comum é placa bacteriana acumulada na linha gengival, o filme pegajoso que se forma entre escovagens e que, se não removido em 48 horas, mineraliza e transforma-se em tártaro. As bactérias da placa libertam toxinas que inflamam a gengiva. A gengiva inflamada perde firmeza, fica vermelha, edemaciada e fragilizada, e sangra ao mais leve toque (escovagem, fio dentário, mastigação de alimentos rijos).

Há causas menos comuns mas relevantes: alterações hormonais (gravidez, puberdade), medicação (anticoagulantes, alguns anti-hipertensores), doenças sistémicas (diabetes não controlada, leucemias, défices vitamínicos graves). Quando o sangramento é generalizado e desproporcional à higiene oral aparente, vale a pena avaliação médica para além da dentária.

Gengivite: o estádio reversível

A gengivite é a inflamação da gengiva sem perda dos tecidos de suporte do dente. Sinais típicos: gengiva vermelha em vez de cor-de-rosa pálido, ligeiro inchaço, sangramento ao escovar ou ao usar fio dentário, por vezes mau hálito. Não há dor, e por isso é silenciosa.

A boa notícia é que é totalmente reversível. Uma higienização profissional para remover tártaro, seguida de boa técnica de escovagem em casa (duas vezes por dia, dois minutos) e fio dentário diário, faz a inflamação desaparecer em 1-2 semanas. Sem perda permanente, sem sequelas.

Periodontite: quando o osso já se perdeu

Quando a gengivite não é tratada, a inflamação progride em profundidade e atinge os tecidos que sustentam o dente, ligamento periodontal e osso alveolar. A gengiva começa a separar-se do dente, formando «bolsas» onde mais placa se acumula. O osso reabsorve. Os dentes começam a parecer mais longos (recessão gengival), mexem ligeiramente, deslocam-se. Em fase avançada, caem.

Esta é a periodontite, e ao contrário da gengivite, não é reversível. A perda óssea é permanente. O tratamento estabiliza a doença, mas não recupera o osso perdido (exceto em casos selecionados com regeneração óssea guiada). Quanto mais cedo for diagnosticada e tratada, melhor, daí a importância de não normalizar o sangramento.

Sinais que devem motivar consulta sem demora

  • Sangramento persistente ao escovar (mais de uma semana mesmo com escovagem cuidada)
  • Gengiva visivelmente recuada, dentes parecem mais longos
  • Dentes a mexer ou desalinhar progressivamente
  • Mau hálito que não passa com higiene
  • Pus ou abcesso na gengiva
  • Dor, mesmo que ligeira, à mastigação

Como prevenir (ou estabilizar) em casa

  • Escovar 2 vezes por dia, 2 minutos, com escova macia e técnica adequada (movimentos curtos, ângulo de 45.º para a gengiva). Escova elétrica oscilatória reduz mais placa que a manual.
  • Fio dentário ou escovilhão uma vez por dia, especialmente à noite. Sem isto, as zonas interproximais não são limpas, e é onde a maioria da gengivite começa.
  • Higienização profissional a cada 6-12 meses, ajustada ao risco individual.
  • Não fumar, o tabaco mascara o sangramento (vasoconstrição) e acelera a perda óssea.
  • Controlar diabetes e outras doenças sistémicas, a relação é bidirecional: doença periodontal piora o controlo glicémico, e vice-versa.

Quando procurar acompanhamento médico

Se as gengivas sangram ao escovar há mais de uma semana, agendar uma consulta de medicina dentária com avaliação periodontal é a decisão certa. A consulta inclui sondagem das bolsas, avaliação radiográfica do nível ósseo, e plano de higienização, em consultório e em casa. Na clínica em Paços de Ferreira fazemos higienização profissional, raspagem subgengival quando indicada, e seguimento periodontal em casos de risco. O sangramento cura-se, desde que não se ignore.

Gravidez e gengivas, porque sangram mais

Cerca de metade das grávidas desenvolve gengivite gravídica a partir do segundo trimestre. As alterações hormonais (especialmente progesterona) aumentam a permeabilidade vascular e a resposta inflamatória da gengiva à mesma quantidade de placa. O resultado: gengivas vermelhas, edemaciadas e com sangramento ao mais leve toque, mesmo com higiene oral mantida.

É reversível após o parto, mas merece cuidado durante a gravidez por dois motivos. Primeiro: a periodontite na grávida está associada a maior risco de parto pré-termo e baixo peso ao nascer (há associação, mas não está provado que tratar as gengivas na gravidez evite o parto prematuro). Segundo: hábitos de higiene reforçados durante a gravidez tendem a manter-se. A higienização profissional pode (e deve) ser feita, idealmente no segundo trimestre, com técnica suave e sem radiografia desnecessária.

Quando o sangramento é sinal de algo mais grave

Em casos pontuais, sangramento gengival generalizado e desproporcional à higiene aparente pode refletir uma condição sistémica:

  • Diabetes não controlada, relação bidirecional com doença periodontal; vale a pena medir glicemia/HbA1c.
  • Coagulopatias ou medicação anticoagulante em dose elevada, sangramento espontâneo, hematomas frequentes em outras áreas.
  • Leucemias e síndromes mielodisplásicos, sangramento gengival pode ser sinal precoce, especialmente se acompanhado de astenia, infeções recorrentes ou petéquias.
  • Défices vitamínicos graves (vitamina C, vitamina K), raros em alimentação ocidental, mas possíveis em malabsorção ou alcoolismo crónico.

O dentista que deteta um quadro periodontal estranho, desproporcional aos fatores locais, costuma referenciar para medicina interna para avaliação sistémica antes de assumir tratamento periodontal isolado.

Fontes

  1. Chapple ILC, et al. Periodontal health and gingival diseases and conditions on an intact and a reduced periodontium: consensus report of workgroup 1 of the 2017 World Workshop on the Classification of Periodontal and Peri-Implant Diseases and Conditions. J Periodontol. 2018;89 Suppl 1:S74-84.
  2. Yaacob M, et al. Powered versus manual toothbrushing for oral health. Cochrane Database Syst Rev. 2014;(6):CD002281.
  3. Worthington HV, et al. Home use of interdental cleaning devices, in addition to toothbrushing, for preventing and controlling periodontal diseases and dental caries. Cochrane Database Syst Rev. 2019;4(4):CD012018.
  4. Sanz M, et al. Scientific evidence on the links between periodontal diseases and diabetes: consensus report and guidelines of the joint workshop on periodontal diseases and diabetes by the International Diabetes Federation and the European Federation of Periodontology. J Clin Periodontol. 2018;45(2):138-49.
  5. Iheozor-Ejiofor Z, et al. Treating periodontal disease for preventing adverse birth outcomes in pregnant women. Cochrane Database Syst Rev. 2017;6(6):CD005297.

Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.

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