Periodontia: raspagem subgengival, manutenção e impacto na saúde geral
Periodontite afeta 1 em 3 adultos e está ligada a diabetes, doença cardiovascular e parto pré-termo. Como se trata e porque é que a manutenção é para a vida.
Equipa do Instituto · · 5 min de leitura
Medicina Dentária Instituto Médico e Dentário Dra. Sara Martins, Paços de Ferreira

Já cobrimos antes o sangramento das gengivas e a fronteira gengivite-periodontite. Este artigo aprofunda o que vem depois: o tratamento periodontal propriamente dito, porque é que a manutenção tem de ser para a vida, e a ligação cada vez mais sólida entre saúde periodontal e doenças sistémicas (diabetes, doença cardiovascular, parto pré-termo). Num estudo feito em Almada-Seixal, 6 em cada 10 adultos tinham periodontite, e 1 em cada 4 na forma grave; muitas vezes, sem saberem.
Como se diagnostica periodontite
Não basta olhar, precisa de medição. Numa avaliação periodontal estruturada faz-se:
- Sondagem das bolsas, sonda calibrada que mede a profundidade do sulco entre gengiva e dente em 6 pontos por dente. Bolsas de 4 mm ou mais com sangramento indicam doença; de 6 mm ou mais, doença avançada
- Avaliação do nível de inserção, quanto osso e ligamento se perdeu
- Sangramento à sondagem, sinal de inflamação ativa
- Mobilidade dentária, indica perda óssea avançada
- Radiografias periapicais ou panorâmica, confirmam visualmente a perda óssea
O resultado é classificado em estádios (I a IV) e graus (A a C) que orientam o plano e o prognóstico.
Raspagem e alisamento radicular, o tratamento de base
O tratamento periodontal não-cirúrgico (também chamado SRP, scaling and root planing) é a primeira linha. Diferente da higienização supragengival («limpeza» comum), a raspagem subgengival é feita abaixo da linha gengival, dentro das bolsas, com instrumentos manuais (curetas) e/ou ultrassónicos. Remove tártaro mineralizado e biofilme bacteriano organizado nas raízes, o que a escova não consegue alcançar.
Faz-se em 1-4 sessões consoante a extensão, sob anestesia local. Não dói durante (anestesia faz o trabalho). Pode haver sensibilidade térmica e ligeiro desconforto gengival nos dias seguintes, que resolve em 1-2 semanas. Reavaliação 6-8 semanas depois para medir resposta, bolsas devem ter reduzido, sangramento diminuído. Áreas que persistem com bolsas profundas podem precisar de cirurgia periodontal.
Cirurgia periodontal, quando entra
- Cirurgia de retalho, quando bolsas profundas persistem após SRP. Abre-se a gengiva, limpa-se diretamente, sutura-se. Permite acesso melhor e remoção completa.
- Regeneração óssea guiada, em defeitos seletivos com anatomia favorável, materiais regenerativos podem reganhar parte do osso perdido
- Enxerto gengival, em casos de recessão gengival significativa, devolver gengiva queratinizada protege a raiz
- Alongamento coronário, em dentes com cárie subgengival ou requisitos protéticos
Manutenção periodontal, para a vida
Esta é a parte que mais se subvaloriza. Tratar uma periodontite e depois voltar à higienização semestral «normal» é receita para recidiva. Pacientes tratados precisam de manutenção periodontal a cada 3-4 meses nos primeiros 1-2 anos, depois ajustada conforme a estabilidade. Cada sessão inclui:
- Remedição das bolsas em pontos chave
- Reinstrumentação de áreas que reativaram
- Reforço da técnica de higiene em casa
- Avaliação de fatores de risco (tabaco, controlo da diabetes, stress)
- Despiste de novas zonas ativas
Periodontite e saúde sistémica
A boca não é uma cápsula isolada. A inflamação periodontal crónica liberta mediadores inflamatórios e bactérias para a circulação sistémica. Associações documentadas:
- Diabetes, relação nos dois sentidos, bem estabelecida. A periodontite dificulta o controlo da glicemia, e a diabetes mal controlada acelera a periodontite. Tratar a periodontite baixa a HbA1c cerca de 0,4% ao fim de 3 a 4 meses (Cochrane Simpson 2022).
- Doença cardiovascular, risco aumentado de eventos coronários e AVC. Mecanismo provável: inflamação sistémica e disfunção endotelial.
- Parto pré-termo e baixo peso ao nascer, há associação, mas não está provado que tratar as gengivas na gravidez evite o parto prematuro. O tratamento periodontal durante a gravidez (idealmente no 2.º trimestre) é seguro e trata as gengivas.
- Pneumonia em idosos, má higiene oral e periodontite predispõem a aspiração de bactérias orais.
- Doença renal crónica, associação documentada, embora o mecanismo seja menos claro.
- Demência (Alzheimer), investigação ativa; correlação possível, causalidade ainda em estudo.
Para pacientes com diabetes ou doença cardiovascular, a avaliação periodontal não é opcional, é parte do controlo da doença sistémica.
Quando procurar acompanhamento médico
Se tem sangramento gengival persistente, mau hálito que não passa, retração gengival visível, mobilidade dentária ou diabetes mal controlada, vale a pena avaliação periodontal estruturada, não só «limpeza». Na consulta de medicina dentária em Paços de Ferreira, fazemos sondagem completa, plano de tratamento periodontal individualizado, e seguimento de manutenção a longo prazo. Tratar a periodontite cedo ajuda a evitar a perda de dentes e, nas pessoas com diabetes, melhora o controlo da glicemia.
Higiene oral em casa para pacientes periodontais
Tratar a periodontite no consultório resolve metade do problema. A outra metade é a higiene em casa, sem ela, a recidiva é questão de meses. Recomendações específicas para pacientes periodontais:
- Escova elétrica oscilatória ou sónica, remove mais placa subgengival que a manual, especialmente em pacientes com destreza reduzida
- Escovilhão interdentário nos espaços com retração gengival, substitui ou complementa o fio dentário, mais eficaz em interdentários alargados
- Fio dentário em zonas sem retração significativa, uma vez por dia, idealmente à noite
- Pasta dentífrica com flúor e, em casos selecionados, com agentes antibacterianos (clorexidina em ciclos curtos, estanho)
- Bochechos com clorexidina 0,12%, uso pontual em fases ativas (1-2 semanas após raspagem); não para uso prolongado (mancha dentes, altera paladar)
- Não fumar, o tabaco é o segundo maior fator de risco para periodontite (depois da placa); reduz resposta ao tratamento e mascara sangramento (vasoconstrição)
Custo e periodicidade, o que esperar
O custo do tratamento periodontal não cirúrgico (raspagem subgengival completa) depende da extensão e da complexidade, e é indicado no orçamento, depois da avaliação. Cirurgia periodontal varia de 300 a 1.500 € por sextante. Manutenção periodontal a cada 3-4 meses ronda os 60 a 100 € por sessão.
É um investimento, mas comparado com perda dentária (implantes + coroas custam milhares por dente), tratar e manter a periodontite cedo é, em regra, a opção mais sensata. A periodontite não tratada é uma das principais causas de perda de dentes nos adultos, e repor dentes perdidos custa muito mais do que tratar as gengivas a tempo.
Fontes
- Botelho J, et al. Study of Periodontal Health in Almada-Seixal (SoPHiAS): a cross-sectional study in the Lisbon Metropolitan Area. Sci Rep. 2019;9(1):15538.
- Sanz M, et al. Treatment of stage I-III periodontitis: the EFP S3 level clinical practice guideline. J Clin Periodontol. 2020;47(Suppl 22):4-60.
- Simpson TC, et al. Treatment of periodontitis for glycaemic control in people with diabetes mellitus. Cochrane Database Syst Rev. 2022;4(4):CD004714.
- Sanz M, et al. Periodontitis and cardiovascular diseases: consensus report. J Clin Periodontol. 2020;47(3):268-88.
- Iheozor-Ejiofor Z, et al. Treating periodontal disease for preventing adverse birth outcomes in pregnant women. Cochrane Database Syst Rev. 2017;6(6):CD005297.
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Este artigo tem fins informativos e não substitui uma consulta. Cada caso é avaliado individualmente.


