
Já cobrimos antes o sangramento das gengivas e a fronteira gengivite-periodontite. Este artigo aprofunda o que vem depois: o tratamento periodontal propriamente dito, porque é que a manutenção tem de ser para a vida, e a ligação cada vez mais sólida entre saúde periodontal e doenças sistémicas (diabetes, doença cardiovascular, parto pré-termo). Periodontite afecta cerca de 1 em cada 3 adultos em Portugal — quase sempre subdiagnosticada.
Como se diagnostica periodontite
Não basta olhar — precisa de medição. Numa avaliação periodontal estruturada faz-se:
- Sondagem das bolsas — sonda calibrada que mede a profundidade do sulco entre gengiva e dente em 6 pontos por dente. Profundidades acima de 4 mm são patológicas; acima de 6 mm indicam doença avançada
- Avaliação do nível de inserção — quanto osso e ligamento se perdeu
- Sangramento à sondagem — sinal de inflamação activa
- Mobilidade dentária — indica perda óssea avançada
- Radiografias periapicais ou panorâmica — confirmam visualmente a perda óssea
O resultado é classificado em estádios (I a IV) e graus (A a C) que orientam o plano e o prognóstico.
Raspagem e alisamento radicular — o tratamento de base
O tratamento periodontal não-cirúrgico (também chamado SRP — scaling and root planing) é a primeira linha. Diferente da higienização supragengival (“limpeza” comum), a raspagem subgengival é feita abaixo da linha gengival, dentro das bolsas, com instrumentos manuais (curetas) e/ou ultra-sónicos. Remove tártaro mineralizado e biofilme bacteriano organizado nas raízes — o que a escova não consegue alcançar.
Faz-se em 1-4 sessões consoante a extensão, sob anestesia local. Não dói durante (anestesia faz o trabalho). Pode haver sensibilidade térmica e ligeiro desconforto gengival nos dias seguintes, que resolve em 1-2 semanas. Reavaliação 6-8 semanas depois para medir resposta — bolsas devem ter reduzido, sangramento diminuído. Áreas que persistem com bolsas profundas podem precisar de cirurgia periodontal.
Cirurgia periodontal — quando entra
- Cirurgia de retalho — quando bolsas profundas persistem após SRP. Abre-se a gengiva, limpa-se directamente, sutura-se. Permite acesso melhor e remoção completa.
- Regeneração óssea guiada — em defeitos selectivos com anatomia favorável, materiais regenerativos podem reganhar parte do osso perdido
- Enxerto gengival — em casos de recessão gengival significativa, devolver gengiva queratinizada protege a raiz
- Alongamento coronário — em dentes com cárie subgengival ou requisitos protéticos
Manutenção periodontal — para a vida
Esta é a parte que mais se subvaloriza. Tratar uma periodontite e depois voltar à higienização semestral “normal” é receita para recidiva. Pacientes tratados precisam de manutenção periodontal a cada 3-4 meses nos primeiros 1-2 anos, depois ajustada conforme a estabilidade. Cada sessão inclui:
- Re-medição das bolsas em pontos chave
- Re-instrumentação de áreas que reactivaram
- Reforço da técnica de higiene em casa
- Avaliação de factores de risco (tabaco, controlo da diabetes, stress)
- Despiste de novas zonas activas
Periodontite e saúde sistémica
A boca não é uma cápsula isolada. A inflamação periodontal crónica liberta mediadores inflamatórios e bactérias para a circulação sistémica. Associações documentadas:
- Diabetes — relação bidireccional firmemente estabelecida. Periodontite piora controlo glicémico (HbA1c sobe 0,3-0,5% em casos não tratados); diabetes mal controlada acelera periodontite. Tratar uma melhora a outra.
- Doença cardiovascular — risco aumentado de eventos coronários e AVC. Mecanismo provável: inflamação sistémica e disfunção endotelial.
- Parto pré-termo e baixo peso ao nascer — evidência razoável; tratamento periodontal durante a gravidez (idealmente 2º trimestre) é seguro e recomendado.
- Pneumonia em idosos — má higiene oral e periodontite predispõem a aspiração de bactérias orais.
- Doença renal crónica — associação documentada, embora o mecanismo seja menos claro.
- Demência (Alzheimer) — investigação activa; correlação possível, causalidade ainda em estudo.
Para pacientes com diabetes ou doença cardiovascular, a avaliação periodontal não é opcional — é parte do controlo da doença sistémica.
Quando procurar acompanhamento médico
Se tem sangramento gengival persistente, mau hálito que não passa, retracção gengival visível, mobilidade dentária ou diabetes mal controlada, vale a pena avaliação periodontal estruturada — não só “limpeza”. Na consulta de medicina dentária em Paços de Ferreira, fazemos sondagem completa, plano de tratamento periodontal individualizado, e seguimento de manutenção a longo prazo. Tratar periodontite cedo evita perda dentária mais tarde — e melhora indicadores sistémicos relevantes.
Higiene oral em casa para pacientes periodontais
Tratar a periodontite no consultório resolve metade do problema. A outra metade é a higiene em casa — sem ela, a recidiva é questão de meses. Recomendações específicas para pacientes periodontais:
- Escova eléctrica oscilatória ou sónica — remove mais placa subgengival que a manual, especialmente em pacientes com destreza reduzida
- Escovilhão interdentário nos espaços com retracção gengival — substitui ou complementa o fio dentário, mais eficaz em interdentários alargados
- Fio dentário em zonas sem retracção significativa — uma vez por dia, idealmente à noite
- Pasta dentífrica com flúor e, em casos seleccionados, com agentes antibacterianos (clorohexidina em ciclos curtos, estanho)
- Bochechos com clorohexidina 0,12% — uso pontual em fases activas (1-2 semanas após raspagem); não para uso prolongado (mancha dentes, altera paladar)
- Não fumar — o tabaco é o segundo maior factor de risco para periodontite (depois da placa); reduz resposta ao tratamento e mascara sangramento (vasoconstrição)
Custo e periodicidade — o que esperar
O tratamento periodontal não-cirúrgico (raspagem subgengival completa) tem custo médio em Portugal entre 200-450€ consoante extensão e complexidade. Cirurgia periodontal varia de 300 a 1500€ por sextante. Manutenção periodontal a cada 3-4 meses ronda os 60-100€ por sessão.
É um investimento — mas comparado com perda dentária (implantes + coroas custam milhares por dente), tratar e manter periodontite cedo é claramente a opção economicamente mais sensata. O cálculo mais comum: paciente que não trata periodontite perde 3-6 dentes na década seguinte; o custo de reabilitação dessa perda é múltiplo do que teria sido o tratamento periodontal preventivo.


